Logo que se começa a definir a cultura como “a maneira de viver em conjunto” e que o desenvolvimento é apercebido como um processo libertador que deve permitir a cada um satisfazer as suas justas aspirações, é evidente que a cultura é muito mais que um aspecto, entre outros, do desenvolvimento.

Sociedade Recreativa Musical do Laranjal, 1938, Photographia – Museu Vicentes

Apresentado esta pequena nota em torno de um passado/presente das tunas de bandolins na freguesia de Santo António do Funchal, verifico que em tempos, o nível de vida da população desta freguesia era representativo de uma luta diária à sobrevivência, onde os menos endinheirados viam o seu reconforto e a sua realização pessoal nas tunas de bandolins.

Consistindo este género musical num paralelismo às classes menos desprovidas, estes grupos foram autênticos meios de socialização, formação e de representação. Encontrando-se na sua maior parte associado ao divertimento e ao entretenimento, muitos foram os factores que contribuíram para a extinção dos treze agrupamentos existentes na freguesia de Santo António, no início do século XX.

Marcado por uma árvore genealógica na questão dos saberes musicais, muitos grupos evidenciavam uma falta de liderança no seu meio organizacional, tanto artístico como institucional.

Grupo Musical União do Trapiche, 1930, Photographia – Museu Vicentes

Constatando que esta tradição não foi algo pontual de uma época, o número de grupos formados entre as décadas de 20 e 30 demonstrava bem a procura, o gosto e sobretudo o prazer na arte de tocar bandolim e compor. Sendo real que estes não souberam lidar com os novos conceitos implementados pela sociedade, no que se refere à mudança de regime; rádio; gira-discos; cinema; televisão; o facto é que as pessoas não conseguiram encontrar o equilíbrio necessário a estes factores.
Embora houvesse um período de aprendizagem com intuito de aperfeiçoar a arte do bandolim, não é referido que os grupos e instituições se organizassem de forma a funcionar como escola de música, tendo também sido este factor referido por muitos entrevistados como sendo responsável pela extinção desta tradição, ou seja, a pouca afluência dos jovens nestes grupos.

Evidenciando um repertório diversificado, a sua maior parte era criado pelos mesmos intervenientes nos grupos, destacando-se acima de tudo os seus responsáveis artísticos, que tinham uma função de liderança mas também de direcção artística. De referir a existência de um repertório generalista, ou seja, desde o tradicional ao popular, ligeiro e clássico.

Sociedade Recreativa “A Restauração”, 1930, Photographia – Museu Vicentes

Construindo a sociedade as novas gerações num modelo vindo do passado, a Orquestra de Bandolins do Centro Cultural de Santo António embora represente um conjunto de inovações, presencia muitos aspectos do passado.

Arquitectando-se actualmente nos moldes de uma escola de música, de forma a poder fazer uma ligação à orquestra, esta por sua vez representa acima de tudo uma ocupação de tempos livres, aliado ao convívio.

Querendo realçar um aspecto mais profissional, através de parâmetros mais próximos a outras instituições, algumas dificuldades se observam no confronto de uma diversidade de ocupações e acima de tudo de prioridades por parte dos intervenientes.

Orquestra de Bandolins do Centro Cultural de Santo António, 2006

Tendo um repertório diversificado mas sem a vertente criativa de outros tempos, a sua formação bem como o seu conhecimento através do confronto de outros aspectos, equacionam o total desconhecimento da tradição que abundou em tempos na freguesia.

Referenciada como exemplo único nos dias de hoje dessa tradição, a Orquestra de Bandolins retoma acima de tudo um valor simbólico bem como uma conexão a esse mesmo valor.

Em suma, as tunas do passado não representaram algo pontual nem muito menos um publicou que se cansou de as ouvir. Não houve um factor responsável por essa extinção, mas sim um conjunto de factores, onde o cruzamento entre ambos em consonância com outros contextos sociais produzira o resultado final. Novos conceitos na sociedade, bem como a falta de gerações novas interessadas em aprender aqueles instrumentos, fizeram com que a vivência com a mudança criasse obstáculos e dificuldades entre líderes e membros.

Rodolfo Cró