O bandolim entrou na cultura Americana através das vagas de imigração europeia em inícios do século XIX, num período de grande interesse por tudo aquilo que era exótico e estrangeiro. Por volta de 1850, o bandolim estava em voga e partilhava a popularidade com cítaras, ukuleles (um descendente da braguinha) e outras novidades que entretinham a classe média americana. O bandolim foi inclusivamente um dos primeiros instrumentos a ser gravado nos cilindros de Edison.

Esquerda: Steinway Mandolin Orchestra c.1900 (www.harpguitars.net), Direita: Instrumentos Gibson pré-1920 (www.minermusic.com/cc/jesu.htm)

Com um aumento da imigração Italiana na década de 1880, o bandolim napolitano espalhou-se ainda mais por todos os Estados Unidos. No virar do século eram já muitas as orquestras de bandolins e estas começavam a formar escolas. Neste período o bandolim era o instrumento mais popular na cultura americana.

C. F. Martin

Christian Friedrich Martin (1796-1873) nasceu na Alemanha e aprendeu a arte de construção de guitarras com o mestre Johann Stauffer em Vienna, Áustria. Martin emigrou para os Estados Unidos em 1838 e estabeleceu-se em Nova Iorque, criando aí a C.F. Martin & Co. – a mais antiga companhia americana de instrumentos musicais, que é ainda hoje gerida pela família Martin.

Esquerda: 1899 Martin Style 3, Centro: 1907 Martin Style 4, Direita: 1917 Martin Style 6A (National Music Museum, www.usd.edu/smm/)

Em 1895, dada a popularidade do bandolim, a companhia começou a construir os seus primeiros bandolins como réplicas exactas de bandolins napolitanos. Um dos elementos mais distintivos destes bandolins é o cravelhame bastante semelhante àquele característico da família de construtores Vinaccia (em Nápoles). Foram os instrumentos mais elaborados que a companhia alguma vez construiu e eram de grande qualidade. Os instrumentos desse período que sobreviveram até hoje têm ainda um grande valor comercial. A C.F. Martin foi a primeira companhia a numerar os seus modelos, com os números mais elevados a significarem instrumentos mais ornamentados, tendo sido catalogados 7 estilos diferentes.

Da Esquerda para a Direita: Martin Styles A, B, C, D e E entre 1910 e 1920 (http://www.bellsouthpwp.com/r/d/rdevelli/)

A partir de meados da década de 1910 a companhia deixou produzir bandolins de estilo napolitano, passado a concentrar-se num novo tipo de bandolins (estilos A até E), para tentar competir com os designs de sucesso da Gibson. Influenciados pelas guitarras Martin, os novos bandolins mantinham os cravelhames e o tampo ligeiramente dobrado, mas utilizavam um fundo plano, sendo os bandolins americanos mais parecidos com o bandolim português. Em 1917, o modelo A (o mais modesto) tinha ilhargas de mogno e os estilos B até E eram feitos de pau-rosa e com uma qualidade de ornamentação crescente. Actualmente, a C.F. Martin já não produz bandolins e é sobretudo conhecida pelas suas guitarras (www.cfmartin.com).

Washburn (Lyon & Healy)

Em 1864, George Washburn Lyon e Patrick Joseph Healy fundam a Lyon & Healy, Co. na cidade de Chicago, dedicando-se à construção de instrumentos musicais. Na década de 1870, a Lyon & Healy introduziu uma nova linha de guitarras, cítaras e bandolins (de estilo napolitano) de alta qualidade, que iriam ser vendidos com nome Washburn. A venda de estes instrumentos foi ajudada, sobretudo, por uma campanha de marketing com grande quantidade de anúncios em revistas, jornais e catálogos.

Esquerda: Washurn c.1900, Direita: Anúncio da Washburn

A partir de 1917, a Lyon & Healy introduziu novos bandolins, aplicando, tal como a Gibson, técnicas de construção de violinos. Estes novos bandolins eram construídos nos estilos A até C e eram vendidos com o rótulo “Own Make” para os diferenciar de outros instrumentos que a companhia vendia mas não construía.

Os estilos C e B eram os menos dispendiosos e o estilo A era o instrumento de topo. A característica mais distintiva era o facto de ter um cravelhame em caracol, semelhante ao de um violino, que era coberto por uma placa de borracha vulcanizada que escondia as cravelhas. Na década de 1920, influenciado pelo modelo Florentine da Gibson, surge uma versão ligeiramente assimétrica do estilo A à qual foi dado o nome de Washburn “Deluxe”.

Esquerda: Lyon & Healy style A c.1920 (www.gruhn.com/gallery/), Direita: Lyon & Healy style B c.1920 (Frets.com Museum)

Com o Crash da Bolsa em 1929, a Lyon & Healy enfrentou por dificuldades financeiras, tendo sido adquirida pela Holton Co. A partir de 1930, passou a fabricar apenas harpas, sendo ainda hoje a referência mundial. (www.lyonandhealy.com)

Quanto à Washburn, separou-se da companhia mãe e ao longo do século XX tornou-se uma powerhouse, impulsionada principalmente pelos movimentos de guitarristas da Maxwell Street. É hoje uma das marcas mais reconhecidas de guitarras e ainda produz bandolins, embora apenas nos estilos A e F semelhantes aos da Gibson. (www.washburn.com)

Gibson

No final do século XIX, Orville Gibson (1856-1918) era um empregado numa loja de sapatos que nos tempos livres se dedicava à construção de instrumentos, fundando sozinho a Gibson Company em 1894, numa pequena loja em Kalamazoo, Michigan. Os primeiros instrumentos que desenhou eram um pouco estranhos e não tiveram muito sucesso. Em Maio de 1896, faz o pedido para uma patente que continha ideias para um novo tipo de bandolim com o tampo e fundo planos, em contraste com o bandolim napolitano de ripas curvas, e onde iriam ser aplicadas técnicas de construção de violinos. Em 1902, Orville Gibson junta-se a Lewis Williams fundando a Gibson Mandolin-Guitar Co. Williams passa a gerir a empresa e Gibson continua como consultor até 1915.

Esquerda: Orville Gibson, Centro: 1906 Gibson Style A, Direita: 1906 Gibson Style F-3 (National Music Museum, www.usd.edu/smm/)

Os novos bandolins tinham dois formatos base: o modelo A (estilo Artístico, em lágrima) e o modelo F (estilo Florentino, chamado assim devido à semelhança do cravelhame com o topo das colunas jónicas em caracol). O estilo A era o mais o simples, com um formato redondo básico, e o estilo F era o mais elaborado. Juntamente com a letra era sufixado um número (inicialmente até 4) que indicava o grau de ornamentação do instrumento. A imagem distintiva dos instrumentos era e ainda é a marca “The Gibson” escrita no cravelhame com madrepérola.

Para além de bandolins eram também produzidas bandolas (estilo H), bandoloncelos (estilo K) e um novo instrumento chamado mandobass (estilo J). A Gibson verificou que não havia nenhum instrumento na família do bandolim que fosse um verdadeiro baixo e, por isso, criou um em 1912. O mandobass (bandobaixo?) tem uma forma semelhante aos bandolins do estilo A (embora muito maior), com uma afinação e um registo igual ao de um contrabaixo mas que podia ser tocado com uma palheta.

Esquerda: Gibson Mandobass do catálogo de 1927, Direita: 1916 Gibson Mandobass J (National Music Museum, www.usd.edu/smm/)

Durante este período, a Gibson encorajava os bandolinistas a serem também professores e a formarem novas orquestras. Fotos destas orquestras eram publicadas nos catálogos geralmente associados ao slogan “Every One a Gibson-ite”.

Até 1922 todos os instrumentos da Gibson tinham orifícios sonoros redondos. Nesse ano, o engenheiro acústico Lloyd Loar junta-se à Gibson e desenha uma nova linha de instrumentos. Estes seriam os bandolins A5 e F5, a bandola H5, o bandoloncelo K5 e a guitarra L5, caracterizados principalmente pela sua alta qualidade, ornamentação e por terem orifícios em F (como os violinos).

Esquerda: 1924 Gibson F-5 “Lloyd Loar”, Direita: Lloyd Allayre Loar

Ao longo do século XX, a Gibson cresceu e adquiriu outras marcas (tais como a Epiphone e a Kramer), tornando-se num dos maiores grupos da área musical. Continua a construir bandolins, mas tal como as duas companhias anteriores é sobretudo conhecida pelas suas guitarras. (www.gibson.com)

A Depressão

Para além destes construtores, muitos outros marcaram o panorama bandolinístico do início do século XX e, embora a popularidade do bandolim tenha decrescido após a 1ª Guerra Mundial, o período até 1930 é considerado como o melhor momento da construção de instrumentos de cordas nos Estados Unidos. Até aos dias de hoje, o bandolim F-5 “Lloyd Loar” continua a ser o standard pelo qual a qualidade dos outros bandolins americanos é medida.

Depois de 1930 verificou-se um grande declínio na qualidade dos instrumentos construídos. Numa época de recessão económica, alguns dos construtores foram falência e outros como a Gibson e a Washburn que passaram por dificuldades financeiras, sobreviveram graças à invenção da guitarra eléctrica e à crescente popularidade do Jazz.

O Bluegrass

Quando a popularidade do bandolim e das orquestras de bandolim começou a diminuir, o bandolim era ainda muito utilizado na música country, embora geralmente como instrumento de acompanhamento. Isso iria mudar com o aparecimento de Bill Monroe (1911-1996). Monroe foi “forçado” a escolher tocar bandolim pois os irmãos já tinham escolhido o violino e a guitarra e com eles formou os “Monroe Brothers” gravando 60 músicas até 1938. Bill Monroe tocava bandolim de uma forma pouco comum. Em vez de utilizar o estilo mais relaxado do trémolo, ele tocava notas rápidas de uma forma nunca vista até então.

Esquerda: Uma das primeiras aparições dos Blue Grass Boys, 1939 (www.coutant.org), Direita: Bill Monroe (www.thebluegrassblog.com)

Em 1939, Monroe cria, juntamente com outros músicos, os “Blue Grass Boys”. A banda tornou-se bastante popular, especialmente com actuações na rádio, divulgando ainda mais a nova forma de tocar bandolim. O estilo de música tocado por Monroe, com um virtuosismo instrumental no qual o bandolim é um dos instrumentos centrais, passou a chamar-se bluegrass. E embora não seja o estilo mais popular da música americana, atrai ainda hoje bastantes executantes que mantêm a música viva e em crescimento.

O Rock

O bandolim tem estado presente na música rock desde a década de 1960. Desde as baladas dos Led Zeppplin até ao rock dos Aerosmith passando por Rod Stewart e pelos R.E.M. Artistas famosos que utilizam (ou utilizaram) o bandolim nas suas actuações incluem David Bowie, Peter Buck (R.E.M.), Don Felder (Eagles), David Gilmour (Pink Floyd), John Paul Jones (Led Zepplin), Daron Malakian (System of a Down), Paul McCartney, Jack White (The White Stripes) e muitos mais.

Da Esquerda para a Direita: 1954 Gibson EM-200, 1957 Fender Mandocaster, 2007 Epiphone Mandobird IV, 2007 Kentucky KM-300E

Para além de tocado acústico juntamente com instrumentos amplificados, o bandolim deu também o salto para o lado eléctrico. Com o surgimento e a popularização da guitarra eléctrica, também surgiu o bandolim eléctrico produzido com companhias como a Fender e a Gibson. O modelo mais popular da Fender, na década de 1960, tinha apenas 4 cordas e foi-lhe dado o nome de mandocaster (em contraste com a guitarra stratocaster na qual era baseado). Actualmente podem-se encontrar vários modelos e fabricantes de bandolins eléctricos nas versões de 4, 5 e 8 cordas. www.emando.com]

As Orquestras de Bandolins

Existem cerca de três dezenas de orquestra de bandolins activas nos Estados Unidos e tem havido nos últimos anos um interesse crescente na música clássica tocada com bandolins. O reportório destas orquestras varia geralmente entre a música clássica, propriamente dita, e a música ligeira. É curioso verificar que estas orquestras não têm um estilo único de bandolim definido. Assim, é possível encontrar numa mesma orquestra bandolins de estilo A e F juntamente com bandolins de estilo napolitano e ainda outros mais exóticos.

Baltimore Mandolin Orchestra, 2007

Estas são algumas das orquestras mais conhecidas:
- Baltimore Mandolin Orchestra (Baltimore, Maryland)
- Atlanta Mandolin Orchestra (Atlanta, Georgia)
- Dayton Mandolin Orchestra (Dayton, Ohio)
- Louisville Mandolin Orchestra (Louisville, Kentucky)
- Providence Mandolin Orchestra (Providence, Rhode Island)
- Minnesota Mandolin Orchestra (Minneapolis, Minnesota )
- Milwaukee Mandolin Orchestra (Milwaukee, Wisconsin)
- Kalamazoo Mandolin and Guitar Orchestra (Kalamazoo, Michigan)
- New York Mandolin Orchestra (New York, New York)

Compilado por Élio Cró